Anima v2 - Versão 20/06/2010!

 
 

Contos


Pegadas


          Autoria: Tiago José "Deicide" Galvão Moreira
          Data: 26/11/2008 (editado por Tiago José em 30/11/2008)
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“Nossa, este lugar é lindo!”, elogiou Cíntia ao deixar a trilha e adentrar a clareira. Adiante, um córrego dava num barranco de mais ou menos um metro e meio de altura, gerando uma pequena queda d’água que alimentava uma piscina natural. O forte sol, pouco bloqueado pela copa das árvores, iluminava e aquecia a clareira, criando um ambiente agradável onde o casal de jovens poderia passar o resto da tarde.

“Descobri esse lugar faz pouco tempo, fica dentro da área de preservação da fazenda”, disse Rodrigo, satisfeito ao ver o sorriso da namorada. “Ninguém costuma vir aqui, então a tarde toda vai ser só nossa.”

Cíntia abraçou o namorado e o beijou com entusiasmo. Na infância, ela ia à fazenda dos avôs toda semana. Contudo, a fazenda foi vendida depois da morte de seu avô, e Cíntia sentia falta do contato com a natureza. Ela sempre gostou de se banhar em rios, de andar a cavalo e de dormir longe do barulho e da luzes da cidade grande. Quando Rodrigo a convidou para passar o fim-de-semana na fazenda do pai, ela não teve como recusar, apesar da proximidade das provas finais de semestre na faculdade. “Amei a surpresa”, disse, fitando os olhos castanhos do namorado.

Rodrigo afastou-se da namorada para apoiar sua sacola sobre uma pedra às margens da piscina de águas límpidas e geladas. Ele era um rapaz da cidade, não tinha muito gosto pela fazenda, contudo, quando soube que Cíntia adorava o campo, não pôde perder a chance de passarem um fim-de-semana a sós. Os dois namoravam há apenas dois meses, logo seria uma oportunidade perfeita para estreitarem o relacionamento. “Que tal nadar um pouco?”, sugeriu, removendo a camiseta.

Cíntia sorriu em resposta e tirou a blusa. “Como você descobriu esse lugar, Rodrigo?”, questionou enquanto removia a bermuda, ficando apenas de biquíni.

“Meu pai descobriu faz uns meses, quando teve de procurar na mata por uns moleques perdidos, filhos de empregados da fazenda”, respondeu Rodrigo. Já apenas de calção de banho, ele se pôs entre a água e Cíntia e estendeu convidativamente a mão para ela. “Parece que os empregados já conheciam o lugar, mas nunca tinham contado ao meu pai”.

“Não tem risco de alguém aparecer?”, questionou Cíntia, dando a mão ao namorado e deixando que ele a puxasse gentilmente para a água.

“Não, meu pai os proibiu de vir aqui”, respondeu Rodrigo, “mas eles já não gostavam da mata, dizem que muita gente já se perdeu nela”.

Ao mergulhar os pés na água gelada, Cíntia sentiu um calafrio. Pausou por um instante e fechou os olhos, esperando o arrepio passar. Naquele momento, veio-lhe um segundo arrepio, mais intenso, uma sensação ruim que não tinha origem óbvia.

“Que foi?”, questionou Rodrigo ao notar o desconforto da jovem.

Cíntia inspirou fundo e se recompôs, tentando ignorar aquela sensação desconfortante. “Nada, foi só o choque de entrar na água fria”, deduziu. Em seguida, sentiu o gentil puxão da mão de Rodrigo, que já estava imerso até a cintura e tentava fazê-la segui-lo.

“Não se preocupe, que eu te esquento”, disse Rodrigo, com um sorriso maroto nos lábios. Ela também sorriu em resposta, deixando que fosse levada até o centro da piscina, onde as águas a alcançavam nos ombros. Ali, Rodrigo a abraçou e a beijou intensamente.

O jovem casal prosseguiu com beijos e carícias até que seus corpos se acostumassem com a temperatura da água. Os dois ficariam ali durante toda a tarde, se amando ao som de pássaros, cigarras e água corrente. Sob a distração da lascívia, Cíntia esqueceu por completo a sensação que tivera apenas minutos antes, um alerta instintivo de que algo os observava.

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“Volto logo”, Rodrigo avisou, levantando-se e beijando a testa da namorada.

“Aonde você vai?”, questionou Cíntia, sentada sobre as pedras, aproveitando a luz solar que batia ali, à beira da piscina natural.

“Atender ao chamado da natureza”, riu Rodrigo, desnecessariamente explicando em seguida: “Vou dar uma mijada”.

“Que romântico”, Cíntia resmungou sarcasticamente, observando Rodrigo afastar-se do córrego e sumir entre as árvores. Em seguida, soltou um suspiro, relembrando os eventos daquela tarde maravilhosa: ali, naquela clareira, eles nadaram e lancharam sob o Sol. Quantas horas tinham passado ali, se beijando e se acariciando? Duas? Três? Ela não tinha certeza, mas o Sol já começava a perder um pouco de seu brilho, o que indicava que faltava talvez pouco mais de uma hora antes de sumir no oeste. Cíntia fechou os olhos para aproveitar a luz e o calor solar que batiam em seu rosto.

Ali ela permaneceu por alguns minutos, sentada de olhos fechados. Foi quando notou que a mata estava silenciosa, sem o som típico de pássaros e cigarras que ouvira constantemente quando ela e o namorado chegaram à clareira, horas antes. Agora que Rodrigo não estava ali para distraí-la em seus braços, o silêncio deixou Cíntia preocupada. Percebendo que ele já deveria ter voltado, a moça abriu os olhos e gritou por ele. “Rodrigo?”, o chamado ecoou na mata, mas não obteve resposta.

Cíntia se levantou e, sentindo um arrepio incômodo, cobriu os ombros com uma toalha, abraçando-a como se esse gesto pudesse fazê-la sentir-se mais segura. Então, caminhou até os limites da clareira, na direção tomada anteriormente pelo namorado. “Rodrigo?”, chamou-o, sem gritar desta vez. Novamente, a resposta foi apenas silêncio. Sem saber o que fazer, ela permaneceu na borda da mata, aguardando ali com a esperança de que Rodrigo surgisse a qualquer momento. Fitando o chão, Cíntia viu as pegadas do namorado, indo na direção da floresta, mas para sua surpresa percebeu um segundo rastro que retornava pelo mesmo caminho, feito por pés menores e mais leves. “Rodrigo!!!”, ela urrou, apavorada, diante da possibilidade de que alguém mais estaria ali na clareira.

Após aquele instante de pavor, Cíntia tentou se conter, tapando a boca com uma mão, enquanto com a outra apertava firme a toalha que cobria-lhe ombros e tórax. A sensação ruim que tivera antes retornava, e sua tensão se precipitou num grito de susto quando as árvores ao redor começaram a balançar violentamente como se atingidas por uma ventania, gerando um farfalhar intenso de suas folhas. Afastando-se da borda da clareira e retornando às pedras, Cíntia ficou a fitar confusa o fenômeno, olhando ao redor e rezando para que Rodrigo surgisse da mata. Foi então que sua visão periférica notou uma forma humana pequena e indistinta, espreitando atrás de uma árvore no limiar da mata. Num impulso, a moça focou seu olhar naquela direção, apenas para constatar que era apenas sua mente pregando-lhe peças. Naquele instante, o movimento das árvores cessou de imediato, e o silêncio da mata, quebrado apenas pelo som das águas que se coletavam no centro da clareira, retomou o ambiente.

Cíntia não sabia o que fazer, mas queria entender o que estava acontecendo. Aproximando-se do local em que pensara ter visto o vulto, constatou a presença de leves pegadas infantis, que apontavam na direção da mata. Sua mente dizia-lhe que aquilo era apenas uma brincadeira de moleque, mas seu instinto a fazia se sentir sob constante perigo. Inspirando profundamente e expirando lentamente, Cíntia buscava recobrar o autocontrole, mas seu coração teimava em bater com intensidade. “Quem está aí?”, perguntou em voz alta, apoiando-se numa árvore enquanto tentava encontrar o traquina na mata. “Isso não tem graça, seu moleque!”, gritou.

Então, uma mão dura pousou de súbito no ombro esquerdo de Cíntia, e ela gritou em pânico ao sentir dedos longos e finos se fecharem para agarrá-la. Num impulso, a moça se jogou para o lado, se desvencilhando da toalha que cobria-lhe os ombros para escapar daquela mão esquelética. Cíntia correu de volta às pedras da clareira e, ao olhar para trás, viu sua toalha pendente, “agarrada” pelo galho de uma árvore, cujas ramificações poderiam ser confundidas com dedos.

Foi quando a mata começou a se sacudir e debater mais uma vez. Num instante de terror, Cíntia correu para o outro lado da clareira, passando pela continuação do córrego e contornando a piscina natural, onde ela e Rodrigo tinham deixado suas coisas. Para a surpresa da jovem, a sacola, toalhas, roupas e restos de comida estavam todos remexidos. Ofegante e em pânico, ela correu dali, pegando a trilha pela qual vieram originalmente. Por instinto, gritou o nome do namorado repetidas vezes enquanto fugia daquela clareira maldita, desejando que Rodrigo pudesse ouvi-la e segui-la.

Cíntia percorreu a trilha, gritando e correndo por dez, vinte metros. Então, quando deixou as árvores para trás e se viu novamente na clareira da qual acabara de escapar, diante de seus pertences mexidos e da piscina de calmas águas geladas, ela caiu de joelhos, gritou algo incompreensível e começou a chorar. Aquilo não era possível! Como ela tinha voltado ao seu ponto de partida? A mata ainda tremia em espasmos constantes, seus galhos balançando à vontade de um vento inexistente, o que apenas deixava Cíntia mais e mais desesperada. O que estava acontecendo? Ela não conseguia entender, mas sabia que era algo terrível. Tendo a sensação de notar mais um vulto se movendo na mata, ela se levantou e encarou a trilha pela qual tentara fugir. Ali, sobre suas pegadas recentes, que indicavam que ela saiu e voltou pelo mesmo caminho, a jovem percebeu novamente as pegadas infantis começando na clareira e se perdendo de vista na mata.

Teria o moleque ido embora? Cíntia queria acreditar que sim, mas os arrepios não a deixavam. Ela se abraçou, chorando, fitando a trilha e as pegadas nela e vendo o balançar das árvores. Algo dizia a ela para tentar a trilha novamente, mas ela ignorou esse pensamento e aos prantos correu para a mata, sem pegar o caminho conhecido, mas tentando se manter próxima a ele. Sem desacelerar o passo ou parar para olhar ao redor, ela continuou a fugir desesperadamente. Galhos de árvores se moviam para atrapalhar seu caminho, mas ela não parava, deixando que se chocassem contra seu corpo, causando-lhe escoriações e pequenos cortes.

Já estava escurecendo quando Cíntia viu as árvores ficarem para trás. Não demorou a atravessar o mato alto e chegar ao pasto da fazenda. Foi só então que a moça parou, abalada e exausta, e caiu de joelhos. Fitando a mata que deixara para trás, viu as árvores calmas, movidas apenas pela brisa suave. O sol se punha a oeste, mas as sombras da mata já se tornavam densas. Só então, não mais sentindo aquela tensão insuportável, que Cíntia finalmente se deu conta das dores do corpo, cheio de feridas causadas por sua fuga irracional. Foi naquele momento que ela pensou novamente em Rodrigo, e por quase uma hora gritou em vão pelo namorado.

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“Idiota!”, Rodrigo repetia a autocrítica. Como pôde ser tão idiota? Ele não tinha se afastado nem cinco metros da clareira para se aliviar, como pôde errar o caminho de volta? A cada vez que escolhia uma direção, mais perdido ficava, como se escolhesse sempre o pior caminho possível. Ele nunca tinha se embrenhado numa mata daquele jeito antes. “Eu sou um grande idiota”, se culpava.

As sombras da floresta já se tornavam mais densas, e não era possível ver o céu acima. Não era noite ainda, mas não faria diferença em poucos minutos. A mata estava silenciosa, e Rodrigo não tinha certeza se isso era normal. Onde estava o som dos pássaros, grilos, cigarras e outros bichos que deveriam existir por aqui? Estava certo se calarem à noite? Ele não tinha certeza, pois sempre fora um rapaz da cidade. De qualquer forma, aquela situação o deixava tenso, pois não sabia o quanto tinha se aprofundado na floresta. Para ele, era impossível dizer se os pastos da fazenda estavam a poucos metros ou a vários quilômetros de distância.

Foi então que a copa das árvores começou a tremer, e as folhas começaram a cair como uma chuva que atrapalhava ainda mais a visão. Rodrigo tentava inutilmente afastar as folhas cadentes com os braços, ao mesmo tempo em que procurava uma maneira de se guiar. De repente, o rapaz sentiu um impacto intenso em suas costas, que o fez cair no chão. “Que diabos!”, gritou, virando-se sem se levantar. Seu coração disparou ao ver os galhos de uma árvore se moverem, tentando golpeá-lo novamente. Rodrigo teve tempo apenas para se proteger com os braços antes que fosse atingido. Aquilo doía, mas num instante de pânico, a mente dele preferiu ignorar a dor e não pensar. Levantando-se em desespero e gritando, o jovem se entregou ao instinto e fugiu dali.

Correndo sem rumo pela mata, Rodrigo não demorou a tropeçar nas raízes expostas e cair novamente. Quando se ergueu, notou que a agitação da floresta tinha cessado. O rapaz não conseguia entender o que estava acontecendo, por mais que tentasse raciocinar. Árvores não se movem sozinhas nem golpeiam pessoas, certo? Aquilo só poderia ser um pesadelo, uma alucinação causada pelo pânico. Seu corpo todo doía e, ofegante, o rapaz tentava conter a respiração e controlar o medo. Permaneceu ali por alguns minutos, buscando recobrar a razão. A mata se tornava cada vez mais sombria, e ele temia que ficaria perdido ali até o amanhecer seguinte. Foi quando notou luzes adiante. Lanternas? Talvez alguém estivesse procurando por ele! O jovem respirou aliviado quando a voz de Cíntia ecoou, chamando-o em desespero: “Rodrigo!!!”

As luzes se tornavam mais próximas, estavam logo ali adiante. “Cíntia!”, ele gritou, e ela respondeu repetindo o nome dele. Apressando o passo, ansioso por deixar aquele lugar inóspito, Rodrigo correu pela escuridão. Então, quando estava a poucos metros das luzes, pisou em falso, torcendo o pé e caindo violentamente no chão. Rodrigo gritou de dor e ouviu, mais uma vez, sua namorada chamá-lo. “Socorro! Estou bem aqui!”, gritou para guiar Cíntia até ele, enquanto se arrastava até uma árvore para apoiar-se nela e sentar-se no chão.

“Aqui”, ele repetia, vendo as luzes de lanternas cada vez mais próximas. Contudo, quando estavam a poucos metros de distância, as luzes desapareceram e a voz de Cíntia se calou. Um arrepio percorreu a espinha do rapaz, que sentiu seu corpo todo tremer. “O que está acontecendo?”, gritou, repetindo em desespero: “Cíntia? Cadê você, Cíntia?”

Foi quando as árvores se agitaram novamente. Em meio à chuva de folhas, Rodrigo viu se aproximar uma forma atarracada e corcunda, similar a uma pessoa, mas de olhos reluzentes como os de um gato. Rodrigo gritou por socorro, mas a única resposta que obteve foi um riso tímido da criatura. Tomado pelo pânico, o rapaz se ergueu com dificuldade, mas o pé torcido o impediu de correr. As árvores atacaram-no novamente, golpeando-o e derrubando-o na direção da criatura. Ali, bem diante da coisa, Rodrigo pôde vê-la com clareza: uma forma nebulosa, quase gasosa, com cabelos feitos de musgo e folhas, pele de árvore, dentes disformes de madeira e pés virados para trás. Foi sua última visão antes que sua mente entrasse em choque, fazendo tudo virar trevas.

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Rodrigo seria encontrado pelas equipes de busca três dias depois, inconsciente, desnutrido e fraco, com o pé luxado e o corpo cheio de escoriações e cortes. Se tivessem demorado mais um dia, disseram os médicos, ele estaria morto. Concluiu-se, a partir das memórias fragmentadas do rapaz, que ele teve alucinações em seus momentos difíceis. Rodrigo não retornaria mais à mata desde então, e seu pai mandou que uma placa fosse colocada na entrada da trilha que leva à clareira: “Proibida a Entrada”.

Apesar da placa, às vezes alguém entra na mata, mas nunca sozinho, e nunca por muito tempo. Às vezes, dizem os empregados da fazenda, eles encontram marcas na trilha: sinais muito parecidos com pegadas infantis.


Contos


=== Comentários ===

  • 2009-02-04 00:51:56
         Ellyo Baptista escreveu:

    Fadas? a forma humanoide, em descricao, me lembrou a curupira da mitologia brasileira...
  • 2009-06-12 23:36:19
         Victor escreveu:

    Parece um teaser/trailer. Teremos continuação?
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