Autoria: Tiago José "Deicide" Galvão Moreira Data: 20/10/2008 Este artigo não possui um download disponível. Este artigo contém 1 Comentários
Juan abriu os olhos, sentindo-se diferente. O mundo mudara, enchendo-se de sons e estímulos que Juan jamais sentira antes. Livre finalmente, ele se sentia, livre do escárnio do povo da vila, livre da solidão! Estava pleno: mais ágil, mais forte, mais veloz! A mata lá fora o chamava, e ele a obedeceu, esgueirando pela porta entreaberta e deixando a velha cabana para trás.
Juan perambulou pela mata, sentindo-a com seus novos olhos e ouvidos, percebendo sinais de vida e os pequenos animais ocultos que nunca reparara antes. A noite escura e fria já não mais o incomodava. Pelo contrário, perambular na escuridão era como estar de volta ao ventre da mãe, protegido e não mais sozinho. Então, a mente de Juan, perdida no reino das sensações, recuperou a concentração ao sentir a barriga roncar, pedindo por alimento. Por um instante, pensou em caçar algum pequeno animal, mas num segundo pensamento decidiu dirigir-se à vila, onde sempre catava restos de comida. Juan teria um banquete aquela noite.
Chegando às proximidades da vila, Juan ouviu sons de pessoas rindo e conversando, vozes familiares que provocavam lembranças desagradáveis. Juan se escondeu nas sombras e esgueirou pelo mato alto, aproximando-se da fonte dos ruídos: três jovens, Enrique, Pablo e Lisbela, que ali conversavam, sob a luz de uma fogueira e o som de um velho rádio. Juan não conseguia entender as palavras que diziam, embora as ouvisse bem, mas percebia que estavam rindo. Eles sempre gostaram de rir de Juan, sempre o trataram como se fosse um animal. Provavelmente riam dele naquele instante, pensou. A barriga de Juan roncou novamente, e furioso ele saiu das sombras.
Lisbela gritou ao ver a enorme onça negra surgir furiosa e faminta. Ela e Pablo correram, mas Enrique mal conseguiu se levantar antes que a criatura saltasse sobre ele, derrubando-o violentamente. Enrique gritou até que as presas da onça afundassem em seu pescoço, fazendo jorrar o sangue quente.
Delicioso, pensou Juan, enquanto suas novas mandíbulas arrancavam nacos de carne da caça recém-abatida. Ouvindo os gritos distantes de socorro de Lisbela e Pablo, Juan agarrou em sua mandíbula o corpo inerte de Enrique e o puxou de volta à mata. Satisfeito, finalmente percebeu que, em sua nova forma, ninguém mais riria dele. Por aquela noite, a onça estaria saciada, mas um dia seria a vez de Lisbela e Pablo...
CORAÇÃO FERAL
Antes da ciência alcançar os avanços da idade contemporânea, o homem vislumbrava a natureza com medo e admiração. Se hoje compreendemos ecossistemas, transmissão de doenças e mudanças climáticas, outrora os víamos como reflexos da vontade divina. A humanidade existia à mercê do mundo natural, e cada novo método de cultivo, tratamento médico ou avanço científico era visto não apenas como um desenvolvimento da técnica humana, mas também como uma dádiva divina.
Sob essa mentalidade, ao observar as forças da natureza, via-se qualidades, defeitos, desejos e temores humanos que eram associados a cada planta e a cada fera. Em adição, ligava-se cada animal a uma série de conceitos místicos: lobos eram seres vorazes da escuridão; gatos, criaturas que caminhavam entre os mundos da carne e do espírito; corujas detinham sabedoria e manipulavam o destino; lebres tinham vigor e fertilidade. As pessoas desejavam tais qualidades para si, e por isso o folclore sempre abordou com admiração, inveja ou temor aqueles que, de alguma maneira, conseguiam se transformar em animais ou imitar suas maiores qualidades.
Toda lenda tem um fundo de verdade. Se o homem comum admirava e invejava as feras selvagens, então como poderiam feiticeiros e ocultistas não fazê-lo? Se vendo submissos à frágil condição humana, bruxos e ritualistas desejavam para si as qualidades que viam nas criaturas naturais, e a forma mais clara de obterem essas características era roubá-las, arrancando-as à força e usando-as como troféus sangrentos. Assim, nas mais diversas culturas, eras e lugares, surgiam os esfoladores, ou “ladrões de peles”.
TORNAR-SE A PELE
Esfoladores são ritualistas capazes de, através da morte de um animal, roubar para si as características ou forma da criatura abatida. A mais típica forma desses rituais consiste em vestir a pele de um animal para se transformar nele, daí o termo “ladrão de peles”, mas alguns ritos podem exigir sacrificar animais ou devorar partes deles. Seja qual for a forma usada pelo esfolador, ela sempre envolve algum tipo de violência contra animais: os rituais consistem em, literalmente, arrancar ou roubar as propriedades místicas associadas àquela criatura.
Os resultados de ritos de esfolamento são variados: alguns concedem propriedades invisíveis, como sentidos aguçados ou força bestial, enquanto outros são efeitos notáveis, como a metamorfose plena do ritualista em um animal. É óbvio, contudo, que uma mágica vinda da dor e morte de seres vivos há de ter um preço elevado na alma e na mente do praticante.
O IMPULSO SELVAGEM
Esfolamento é uma forma de feitiçaria elemental que adentra os limites da magia negra. Embora alguns povos antigos tivessem ritos xamânicos de esfolamento, estes eram realizados com cautela e grande devoção ao ser sacrificado. O abuso de tais ritos leva à loucura, pois a cada vez que se rouba as características de um animal, mais o ritualista se comporta como uma fera selvagem.
Tal perigo pode ser negligenciado a princípio: a arrogância de muitos ladrões de peles os faz ignorar a fúria nascente, os momentos em que se perdem para as emoções e o instinto. Contudo, conforme se aprofunda em tais práticas, os efeitos se tornam cada vez mais claros. Alguns ritualistas tentam fugir dessa maldição, usando sua força de vontade para tomar as rédeas da besta interior, enquanto outros simplesmente não se importam: eles abraçam a selvageria e se tornam animais, ainda que disfarçados sob forma e intelecto humanos.
TRADIÇÕES METAMÓRFICAS
Praticamente todos os povos conceberam, em algum momento de sua evolução, histórias de pessoas que se tornavam animais. Lendas européias, africanas, americanas e asiáticas falam de bruxos, feiticeiros e amaldiçoados que vestiam peles para se transformarem em animais. Cada fera selvagem é, nas lendas, relacionada a qualidades que o feiticeiro desejava obter através da transformação. Por exemplo, antigos líderes tribais e reis africanos se transformavam em leões, símbolos de nobreza e força; guerreiros maias e astecas assumiam a forma de onças, consideradas protetoras divinas; bruxas européias preferiam imitar gatos, corujas ou lobos, predadores noturnos de má reputação, e a lista prossegue: tigres, chacais, hienas, panteras e tantos outros animais de qualidades fortes, em geral predadores selvagens.
Em muitas sociedades primitivas, desenvolveram-se tradições místicas em torno da habilidade de transformar. Seus líderes espirituais, xamãs que comungavam com as forças da natureza, eram os únicos aptos a praticar tais rituais, mas às vezes criavam artefatos para que um guerreiro talentoso pudesse invocar a força animal para si. Para amenizar o impacto desses ritos, tais guerreiros e xamãs eram adorados e tratados com honrarias, assim tornando “dócil” suas feras interiores. Em momentos de grande necessidade, a tribo despertava a fúria desses homens, invocando sua proteção.
Quando a agricultura e a civilização se desenvolveram, tais ritos perderam força, sendo abolidos, devido ao seu perigoso potencial, ou esquecidos, caindo na obscuridade por falta de místicos capazes de executá-los. Alguns ritualistas, porém, preservaram o conhecimento dos velhos ritos, às vezes adaptando-os aos novos tempos. Se antes tais práticas eram grandes sacrifícios para o bem da tribo, elas evoluíram em bruxarias vis, usadas para aterrorizar vilas ou praticar crimes. Como todo conhecimento místico, não é impossível que ainda haja praticantes, ou pelo menos guardiões, desses segredos em cantos longínquos do mundo.
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